23/02/2008 15:40
Literatura e culpa
Há diversos escritores que exploram em seus livros os temas da culpa e expiação, tão caros aos religiosos. Na verdade mesmo as antigas tragédias eram um exercício de purificação da culpa através do sofrimento, fazendo com que o espectador, ou leitor, exercite a purgação de seus dilemas através da vitória do herói, após muito sofrimento, ou da punição do vilão. É a velha e tão comentada catarse, processo já descrito por Aristóteles e que, afinal, sempre será utilizado. Mas o que importa em literatura não é o tema em si, mas as variações possíveis sobre o tema.
Neste sentido, um escritor que pode ser considerado especialista no assunto e que ainda é muito lido é o inglês Graham Greene.
Conhecido mais superficialmente como autor de livros de espionagem, boa parte de sua obra é marcada por personagens consumidos pela culpa e pelo remorso, reagindo quase sempre de maneira brutal (falo aqui não só de violência física, mas da psicológica, ou da alma, chamem como quiser). A grande diferença, no caso de Greene, é que não há catarse, não há redenção e os personagens permanecem irremediavelmente perdidos no vácuo de suas existências. Ou seja, não há inovação na forma ou no conteúdo, mas no modo de construir os personagens. Esse negócio de culpa e expiação é bem católico e Greene (convertido ao catolicismo em 1926), não por acaso, era considerado o "escritor mais católico da Grâ-Bretanha", rótulo que rejeitava, mas que aparece com maior ou menor clareza em vários de seus livros.
Para quem se interessar, recomendo três, dentre os inúmeros livros que Greene escreveu (não li todos), que valem a leitura: trata-se de "Nosso homem em Havana", "O Americano tranquilo" e "Fim de caso". Os dois últimos eu sei que também viraram (bons) filmes, mas deixe a preguiça de lado e leia antes de assistir, quem assim o fizer, não se arrependerá.
enviada por DouglasReis
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