19/07/2008 15:17
voltando de férias - ainda o teatro
Depois de alguns dias de merecido descanso, este humilde blogueiro que vos fala volta para comentar o festival de teatro que acontece aqui em minha cidade, São José do Rio Preto. Muitas as atrações, vou falar apenas do que vi, obviamente(embora não seja tão óbvio assim):
-"Carmen Funebre" - a peça que abriu o FIT 2008, de uma trupe teatral polonesa, fala sem palavras de algo muito próximo de nós: a guerra, a desumanização, a perda, o vazio e, por fim, a esperança do recomeço. Ora, dirá o leitor, não temos guerra por aqui! Não mesmo? Olhe em volta, só um pouco, e me diga novamente que não. Bela e triste, abriu de forma diversa um festival que costumava usar da comédia nas estréias. Boa escolha.
- "Literatura contemporânea" - sou leigo em teatro mas ouso afirmar, instintivamente: os monólogos são um desafio maior para o autor, diretor e ator, pois há um espaço menor para manobra e os erros ficam mais visíveis. Esse monólogo que, aliás, estreiou aqui e fará temporada em São Paulo (fiquem atentos à programação) escapa habilmente das armadilhas comuns ao gênero, com um texto inspirado de Fernando Bonassi, uma direção convencional mas correta do mesmo Bonassi e um ator excepcional (César Figueiredo), a peça mostra os conflitos e dilemas do escritor contemporâneo(na definição da personagem), esmagado pela aversão à mediocridade que o cerca e, ao mesmo tempo, obrigado a dela participar para continuar existindo. Meu resumo é fraco, mas a peça é excelente e vale o ingresso.
- "Acqua Toffana" - outro monólogo, este inspirado no livro da herdeira de Rubem Fonseca, Patrícia Melo, retratando os dilemas de fulano de tal, candidato a assassino de Célia, a vizinha a quem não suporta, mas com a qual mantém uma relação doentia em que amor e ódio se confundem. Transformar um romance (ou parte dele) em uma peça não é tarefa fácil e o texto da própria Patricia Melo me pareceu às vezes um pouco perdido nesse processo de transição, na adaptação feita pelo diretor Pedro Bricio e pela atriz Dani Carlos. A fragilidade do texto, no entanto, é compensada pela ótima direção de Pedro Bricio, com soluções inventivas que reforçam o humor negro do texto, bem como pela interpretação de Dani Carlos, uma atriz no papel de um homem, o que muito diz acerca da cisão na personalidade da personagem, dividido entre o ser e o querer ser que o faz, afinal, apossar-se daquilo que não lhe pertence.
As duas últimas peças que comentei continuarão em temporada após o festival e, quem se interessar, assista, vale a pena. No mais, que a minha querida Rio Preto ainda tenha muitos festivais. Vida longa ao FIT!
enviada por DouglasReis
28/06/2008 14:51
Vá ao teatro...e me chame!
Pessoal, apesar de ser difícil aceitar tal realidade, o mundo não é feito só de cinema e literatura: o teatro (pai ancestral do cinema e da literatura, especialmente do romance) é uma forma de arte bela e libertadora. E tenho orgulho de afirmar que minha cidade, São José do Rio Preto, vai sediar, como há muitos anos, o seu Festival Internacional de teatro, um dos mais importantes do Brasil, que acontecerá de 9 a 19 de julho de 2008. Estarei por aí, como sempre. Quem puder, curta! Cultura de primeiro nível a preços populares. Acessem o site www.festivalriopreto.com.br e confiram os detalhes. Até.
enviada por DouglasReis
28/06/2008 14:45
JAWS
Em meio a provas de semântica, seminários de francês e trabalhos de organização escolar, volto para falar rapidamente sobre o post anterior. Afinal, leitor, "Tubarão" é mesmo o melhor filme de Spielberg?
Sou daqueles que acham que o grande diretor se revela nos momentos mais difíceis, quando todo o resto joga contra. Assim foi, por exemplo, com Alfred Hitchcock (de quem falarei em outra ocasião): "Janela indiscreta" é um filme sem roteiro, com estória minima. No entanto, com dois bons atores no duo principal(James Stuart e Grace Kelly) e um diretor com completo domínio do processo cinematográfico, foi criada uma obra-prima não só do suspense, mas do cinema.
Com Spielberg, não foi diferente. Vindo da TV, em uma época de poucos recursos, já havia feito duas experiências bem sucedidas na TV, com os ótimos "Encurralado"(Duel), de 1971 e "Louca Escapada"(The Sugarland Express), de 1974. Mas o pulo do gato veio com sua primeira experiência cinematográfica. Com roteiro sucinto, estória quase inexistente e atores, à época, de segundo escalão (com exceção dos veteranos Roy Scheider e Robert Shaw), com "Tubarão" (JAWS)Spielberg tirou leite de pedra e dirigiu algumas das mais incríveis cenas de um filme de suspense, inaugurando o gênero dos "blockbusters" (o filme faturou mais de 100 milhões de dólares), em um filme que até hoje é incansavelmente imitado. Destaque também para a trilha sonora de John Willians, simples e genial.
Depois disso, é claro, Spielberg fez outros filmes de grande talento, como ET, "Contatos imediatos do 3º grau", "A Lista de Schindler", só para citar alguns. Mas aí ele teve mais roteiro e recursos, o que não desmerece o lugar de honra que a obra do diretor norte-americano ocupa na história do cinema. Mas é em filmes fantásticos como "Jaws" que o diretor mostra do que é feito.
enviada por DouglasReis
14/06/2008 14:56
Por falar em Spielberg...
Na minha opinião, o melhor filme de quem fez coisas incríveis como "ET" e "O resgate do soldado Ryan", dentre outros, é "Tubarão"(!). Por que? Volto para explicar outra hora.
enviada por DouglasReis
14/06/2008 14:52
As últimas - Indiana Jones e a busca do encanto perdido
Voltei para dizer a meus inúmeros leitores que estou vivo(por enquanto) e para falar do último "Indiana Jones", que fui assistir.
Trata-se de outro filme que ativa minha "memória emocional", pois era garoto quando assisti a primeira (e melhor) aventura do arqueólogo mais famoso do cinema, "Raiders of the lost ark". Com diversas cenas antológicas, que até hoje são imitadas mundo afora, o primeiro episódio da série apresentava uma modernização dos seriados de aventura dos anos 50, sacada genia de Spielberg e George Lucas. O filme tinha ritmo e graça, com um ator perfeito para o papel: Harrison Ford, que não é um ator de vastos recursos, emprestou humanidade e cinismo a um personagem improvável. Nos dois filmes seguintes o ritmo foi mantido, ainda que não com a mesma qualidade (especialmente o terceiro, devido á química de Ford com o sempre ótimo Sean Connery e uma aposta mais forte no humor).
Digo isso porque o quarto filme da série, "Indiana Jones e o reino da caveira de cristal"(nome compriiiiiiido!) é, sem dúvida, o mais fraco da série e a prova de que certas idéias não deveriam sair da gaveta. O melhor do filme, como sempre, é Harrison Ford, mas somente isso nunca foi o suficiente para segurar a série. E aí vem o pior: é Spielberg.
Sou grande admirador dele, mas é forçoso admitir que desde "Prenda-me se for capaz", o diretor norte-americano não acertou mais nenhuma, incluindo alguns filmes medianos(O terminal) e outros francamente ruins(Guerra dos mundos). Em "reino da caveira de cristal", a direção de atores é inexistente (Cate Blanchett, atriz de que gosto muito, está especialmente mal, não é preciso fazer caras e bocas o filme todo para ser vilã), o roteiro de David Koepp (Blade Runner) é de nível colegial e mesmo a comum inventividade de Spielberg nas cenas de ação não dá o ar da graça e torna esse episódio uma imitação de má qualidade dos anteriores. A contrário de "Speed Racer", comentado anteriormente, que faz um delicioso "revival" do desenho de sucesso nos anos 70 e o moderniza, com a nova aventura de Indiana Jones o que se vê é um filme velhinho, velhinho. Uma das coisas mais legais da vida é saber a hora de parar e fazê-lo com dignidade. Guarde o chapéu e o chicote, Indy. E quanto a Spielberg, é melhor começar a se reciclar, ou será engolido pelos novos diretores que surgem ou surgirão.
enviada por DouglasReis
29/05/2008 10:00
Literatura é(a) vida
Muito melhor do que eu, Guimarães Rosa - Grande Sertão: veredas
"Por que era que eu estava procedendo à-toa assim? Senhor, sei? O senhor vá pondo o seu perceber. A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho. Acertasse eu com o que depois sabendo fiquei, para lá de tantos assombros...Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia."
Fiquem atentos à travessia, aproveitem o dia. Inté.
enviada por DouglasReis
23/05/2008 18:17
As últimas, por ora
De passagem, comento dois filmes que fui ver.
Um é "Homem de ferro". Bom, mas não é nada de mais. Seria fraco, não fosse o ator perfeito para o papel: Robert Downey Jr. está ótimo como sempre e carrega o filme nas costas, com suas tiradas irônicas e cortantes.
"Speed Racer". Esse é para os saudodistas, como eu, que assistiam ao animé que passou no Brasil no final da década de 70, início da de 80. Acredito que os mais novos não acharam muita graça e se entediaram com o visual extravagante do filme. Mas aqueles que acompanharam o desenho quando passou (e ainda passa na tv paga) perceberam que o filme captou com perfeição o clima e os personagens carismáticos do desenho, reproduzidos à perfeição no filme. Destaque para a inventividade visual dos Warchowski(é assim?) brothers, criadores da trilogia "matrix", para as ótimas cenas dos pegas e para o ator que faz o gorducho e seu companheiro inseparável, o chimpanzé zequinha, que estão impagáveis. Vale a pena entrar neste mundo de fantasia e esquecer um pouco de nossa cada vez pior realidade.
Volto em outra ocasião para falar, dentre outras coisas, de Indiana Jones.
enviada por DouglasReis
17/05/2008 16:47
Quando os dinossauros vagavam sobre a terra brasilis
Agora vou comentar sobre um assunto com o qual admito não ter grande familiaridade, mas que também me desperta uma "memória emocional", ou seja, o rock brasileiro.
E o cenário atual, na minha opinião, é lamentável, pois as bandas que estão em evidência são de dois tipos: o lixo atual de bandas como Charlie Brown, NXZero e outras porcarias, ou a tentativa de ressucitar bandas que fizeram sucesso nos anos 80, normalmente mal sucedidas e com o único intuito de faturar mais uma graninha (afinal, os caras envelheceram, constutuíram família e precisam batalhar o leitinho das crianças).
Na verdade, vivi uma época (década de 80) na qual tive o privilégio de presenciar o nascimento e ascensão de algumas das melhores bandas já surgidas no cenário nacional. Só para citar alguns, e havia para todos os gostos, posso mencionar o rock bobo e bem humorado da carioca Blitz de Evandro Mesquita e do paulista Ultraje a rigor, a poética mais pretensiosa de Cazuza e o Barão Vermelho e Renato Russo e a sua Legião Urbana, bem como o baiano desbocado Marcelo Nova e o Camisa de Vênus, uma banda inesquecível. Por fim, não há como esquecer a fúria dos Titãs, liderados por um Arnaldo Antunes anárquico e genial, que resultou em dois dos melhores discos de rock dos anos 80: "Cabeça dinossauro" e "Jesus não tem dentes no país dos banguelas", com verdadeiros clássicos como "Polícia", "Igreja", "Lugar nenhum", "Nome aos bois", dentre outros. E pensar que hoje o que sobrou da banda fica cantando coisas deprimentes como "enquanto houver sol..." e "epitáfio". Viraram uns velhos otimistas. Ou seja, não fazem mais rock. Essa gente, hoje, fariam Jerry Lee Lewis e os Ramones vomitar (em cima deles, claro).
No final, podemos concluir que o rock brasileiro atual reflete essa decadência e já nasceu velho, querendo ser apaixonado e bem comportado, como um bom pagode (ou sertanejo)elétrico, afinal, as gravadoras precisam vender, né?
Acho que já falei demais hoje, mas ainda volto ao assunto, em outra oportunidade, acho.
enviada por DouglasReis
17/05/2008 16:26
Morra, proust!
Fui absorvido nos últimos dias pela obrigação (e põe obrigação nisso) de ler alguns trechos de "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust, para uma prova de literatura francesa. Só para constar: não se poderia esperar boa coisa de um sujeito que se propõe a escrever três volumes, acaba parindo sete e só para de escrever porque morreu. A obra é um xodó dos intelectuais de plantão, sendo que alguns a consideram a maior obra literária já escrita (só se for no tamanho). Não quero me passar por procurador do Paulo Coelho e outros lixos literários, mas boa literatura não precisa ser chata para ter valor, vide autores clássicos e empolgantes como Dostoieviski, Melville, Balzac, Machado de Assis, dentre outros, que são capazes de abrir os olhos do leitor para um aspecto novo a cada (re)leitura, sem entediar. Só para não alongar o post: o cara é um porre! Se ele não estivesse morto, eu mesmo o mataria, presenteando-o com a coleção completa da Danielle Steel! Espero que tenha reencarnado como revisor de textos, para ver o quanto é bom ficar lendo texto chato.
enviada por DouglasReis
10/05/2008 17:14
O hipócrita do cinema 2
Diga-se, ainda, que após esse filme infame, Stone conseguiu se superar fazendo filmes ainda piores, como "Nascido em quatro de julho" e o horroroso "JFK", com sua teoria pseudo-conspiratória levada às últimas consequências. Mais recentemente, ele voltou ao ataque, com seu oportunismo incontrolável, abordando os ataques de setembro de 2001, como o megachato "As torres gêmeas", com o Nicolas Cage e sua eterna cara de choro.
Voltando aos filmes de guerra sobre o Vietnã, somente dois diretores tiveram a coragem de abordar o assunto como aquilo que ele realmente é, ou seja, uma guerra como qualquer outra, louca, sangrenta e sem sentido. Trata-se de dois gigantes, Francis Ford Coppola e Stanley Kubrick. O primeiro fez "Apocalipse now", tomando como base o fantástico romance "Coração das trevas", de Joseph Conrad, trazendo o ambiente de sonho e loucura do escritor polonês para a selva vietnamita, com um Marlon Brando antológico e assustador, em uma participação pequena no tempo mas grande em intensidade. O segundo fez aquele que, na minha opinião, é o melhor filme já feito sobre o assunto. Trata-se de "Nascido para matar" (Full metal jacket), que pode ser dividido em duas partes. Na primeira metade do filme, antológica, o filme mostra o treinamento dos recrutas que vão ao Vietnã como uma verdadeira "máquina de moer carne", com consequências desastrosas. A segunda, não tão boa quanto a primeira, mas ainda assim excelente. Mostra os soldados treinados enfrentando o imponderável, escombros movendo-se sobre escombros. Ambos os filmes ressaltam a loucura do ser humano que emerge em uma guerra, trazendo o pior de cada um, como em um clima de sonho, na qual as coisas parecem não estar acontecendo de verdade, onde não há sargentos "bons" ou "maus", mas apenas seres humanos buscando sangue.
Quanto a Oliver Stone, acho que ainda não nos livraremos dele tão cedo, por isso espero seu próximo filme para falar mal dele, claro.
Por enquanto é só, inté.
enviada por DouglasReis
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